A Saudação "A Paz de Deus" e o Ósculo Santo na CCB: Tradição e Fundamento Bíblico

A Saudação "A Paz de Deus" e o Ósculo Santo na CCB: Tradição e Fundamento Bíblico

Uma Saudação que Ultrapassa os Limites do Cotidiano

Ao se encontrarem em qualquer recanto do planeta, seja no átrio de um grande templo, nos corredores de um hospital, em uma estação de metrô ou em uma modesta residência rural, os membros da Congregação Cristã no Brasil não utilizam os cumprimentos corriqueiros do vocabulário profano. Com um olhar sereno e sincero calor fraternal, estendem a mão direita e pronunciam solenemente as palavras: "A paz de Deus". A resposta ecoa com a mesma solenidade afetuosa: "Amém" ou "A paz de Deus a vós também". Em seguida, se o cumprimento ocorre entre dois irmãos ou entre duas irmãs, as faces aproximam-se e um beijo suave no rosto sela a saudação.

Para o observador contemporâneo, habituado à impessoalidade das relações sociais e ao distanciamento individualista característico das metrópoles, essa cena desperta profunda curiosidade e admiração. Longe de representar mero formalismo arcaico ou costume tribal exclusivo de uma agremiação religiosa, essa forma de tratamento encerra um dos legados mais puros do cristianismo primitivo, resgatado pelos pioneiros pentecostais e preservado com zelo inabalável há mais de um século.

O Fundamento Teológico da Saudação "A Paz de Deus"

Por que os fiéis da Congregação utilizam a fórmula "A paz de Deus", enquanto em outras ramificações evangélicas predomina comumente "A paz do Senhor"?

A resposta encontra-se na própria substância das Escrituras Sagradas. O apóstolo Paulo, em sua comovente exortação aos filipenses, declarou em Filipenses 4:7: "E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus". A paz de Deus não é uma mera tranquilidade emocional passageira, nem a simples ausência de conflitos civis; trata-se do estado de reconciliação perfeita entre a criatura e o Criador, alcançado pelo sacrifício expiatório do Cordeiro no Calvário.

Ao saudar o seu semelhante com essa bênção verbal, o crente não está apenas desejando votos cordiais de bem-estar: ele está invocando sobre a vida do seu irmão a plenitude da graça divina, lembrando-lhe de que, em meio às tempestades, tribulações e dores do mundo presente, a paz de Deus permanece como âncora inabalável para a alma. O ministério da igreja sempre ensinou que a saudação deve ser proferida com sobriedade e do fundo da alma, evitando que se transforme em um vício de linguagem mecânico e desprovido de reverência.

O Mandamento Bíblico do Ósculo Santo no Novo Testamento

Se a saudação verbal fundamenta-se nos textos apostólicos, o gesto físico que a acompanha, o chamado ósculo santo, possui um suporte bíblico ainda mais explícito e reiterado. No cânon do Novo Testamento, os apóstolos Paulo e Pedro ordenam expressamente a prática do beijo santo em nada menos que cinco ocasiões:

1. Romanos 16:16: "Saudai-vos uns aos outros com ósculo santo. As igrejas de Cristo vos saúdam."

2. 1 Coríntios 16:20: "Todos os irmãos vos saúdam. Saudai-vos uns aos outros com ósculo santo."

3. 2 Coríntios 13:12: "Saudai-vos uns aos outros com ósculo santo."

4. 1 Tessalonicenses 5:26: "Saudai a todos os irmãos com ósculo santo."

5. 1 Pedro 5:14: "Saudai-vos uns aos outros com ósculo de amor. Paz seja com todos vós que estais em Cristo Jesus. Amém."

No contexto do mundo antigo, o beijo no rosto ou na face era a saudação habitual entre membros de uma mesma família, demonstrando reconciliação, afeição paternal e lealdade fraternal. Ao incorporarem esse costume cultural à vida litúrgica da Igreja, os apóstolos acrescentaram-lhe um adjetivo decisivo: o beijo deveria ser "santo" (hagios) e motivado pelo "amor" (ágape). O ósculo tornava-se o selo visível de que todos os batizados, independentemente de serem judeus ou gregos, escravos ou homens livres, ricos ou desvalidos, compunham doravante uma única e indivisível família celestial.

A Disciplina Prática na CCB: Decência, Pureza e Zelo Sagrado

Ao restaurar o mandamento do ósculo santo no início do século XX, os fundadores da Congregação Cristã no Brasil estabeleceram balizas rigorosas de disciplina para resguardar a integridade da igreja contra qualquer distorção ou escândalo. A regra eclesiástica fundamental estabelece que o ósculo santo deve ser praticado estritamente entre pessoas do mesmo sexo biológico: irmãos saúdam exclusivamente irmãos, e irmãs saúdam exclusivamente irmãs.

Essa separação reflete a prudência cristã aconselhada em passagens como 1 Tessalonicenses 5:22: "Abstende-vos de toda a aparência do mal". Entre homens e mulheres de sexos opostos, mesmo quando unidos pela fé comum, a saudação faz-se com um cordial aperto de mãos e a declaração verbal da paz de Deus. Essa medida preventiva impede o surgimento de pensamentos impróprios, preserva o respeito devido às famílias e assegura que a pureza do ambiente sagrado jamais seja maculada por insinuações mundanas.

Além disso, o ósculo santo é praticado com extrema modéstia: trata-se de um toque suave na face, desprovido de teatralidade, acompanhado de aperto de mão solene. Em períodos de crises sanitárias epidêmicas ou resfriados transmissíveis, o Conselho de Anciãos orienta reiteradamente a irmandade para que o ósculo seja suspenso temporariamente por prudência caridosa, mantendo-se a saudação fraternal à distância com a paz de Deus no coração, demonstrando que a preservação da saúde e da vida dos irmãos é o verdadeiro cumprimento da caridade cristã.

O Significado Interior: Reconciliação, Unidade e Amor Fraterno

Mais do que uma tradição exterior observada ao final dos cultos, o ósculo santo é compreendido como um verdadeiro tribunal da consciência cristã. É ensinamento clássico no púlpito da Congregação que nenhum irmão ou irmã deve estender a face para dar o ósculo santo se mantiver em seu coração qualquer mágoa, rancor ou desavença não perdoada contra o próximo.

A ordem de Jesus no Sermão da Montanha aplica-se plenamente a esse momento: "Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta" (Mateus 5:23-24). O ósculo é, portanto, a confirmação pública de que a paz reina entre os fiéis. Quando dois crentes que outrora divergiram em assuntos temporais aproximam seus rostos no átrio da igreja e trocam o beijo santo com lágrimas de arrependimento, o poder restaurador da graça divina manifesta-se em toda a sua plenitude.

Nessa prática secular, a Congregação Cristã no Brasil testemunha ao mundo moderno que a verdadeira comunhão cristã não é feita de discursos retóricos ou de aproximações superficiais em redes virtuais. Ela é tecida na humildade da carne, no aperto caloroso das mãos calejadas pelo trabalho, na bênção verbal da paz e no beijo santo que consagra o amor fraternal até a eternidade.